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Um ponto que acho que não deixei muito claro ontem, é que apesar de todos os pontos contras que eu listei, eu acredito que os programas de concientização sejam bastante importantes em uma estratégia sólida de segurança. Mas eles devem fazer parte de um conjunto de medidas que juntas agregam muito mais a segurança, do que qualquer uma delas poderia fazer individualmente. É meu velho mantra: Segurança em Profundidade.

Mas voltando ao assunto, creio que este tipo de iniciativa seja importante, mas devemos buscar formas de fazer isso de uma forma interessante ao usuário e que, como eu já havia dito, leve ao desenvolvimento do senso crítico.

Também precisamos de forma de reavivar as idéias na cabeça das pessoas, mas sem que nos tornemos chatos insistentes.

Também creio que venhamos ter um ganho mais significativo a médio e longo prazo, por dois motivos: Virar senso comum e o aumento de pessoas habituadas a tecnologia.

O primeiro caso ocorrerá, em parte, devido ao nosso continuo trabalho de conscientização e o habito que as pessoas passarão a ter com relação aos procedimentos adequados. O que hoje é algo abstrato, orientado por “especialistas” passará a fazer parte da cultura da nossa sociedade. Isso pode parecer um pouco utópico, mas aí também temos o próximo motivo: pessoas habituadas a tecnologia. O que viria a ser isso? Simples, aqueles que nasceram e estão crescendo no mundo de hoje, estão muito mais habituadas a tecnologia que nossos pais, ou até que nós mesmos. Para eles, a tecnologia com suas armadilhas fazem parte do mundo que sempre conheceram e as muitas prevenções passarão a ser intuitivas.

Claro que novas formas de ataque surgirão, mas aí cabe a nós continuarmos educando as pessoas, ajudando-as a desenvolver seu senso crítico, sua capacidade de julgar os riscos.

Muitos profissionais de segurança tem defendido os programas de conscientização, como se estes fossem o Santo Graal que irá resolver todos os problemas de fraudes na Internet. Minha posição sempre foi de que é um componente importante, porém que sozinho não é suficientemente para resolver os problemas existentes.

A principal razão para esta opinião sempre foi a dificuldade de educar os usuários em um ambiente com constante evolução tecnológica. Como orientá-los se a cada minuto surge uma nova tecnologia, criando vetores de ataque que até então não haviamos imaginado.

O contraponto a este pensamento, que me fazia crer na importância destes programas era a possibilidade de ensinar orientações básicas, que poderiam ser empregadas nas mais diversas situações, tornando os conselhos mais maleáveis e abrangentes. Estes conselhos poderiam incluir dicas como:

  • Não abra e-mails outras comunicações com pessoas desconhecidas;
  • Aplique sempre as últimas correções dos softwares que você tem instalado em seu micro;
  • Atualize diariamente seu anti-virús;
  • Não abra arquivos executáveis, principalmente de origens desconhecidas;

Porém, após uma análise mais cuidadosa veremos que, mesmos estes conhelhos básicos, são insuficientes. Softwares podem usar a lista de contatos de um conhecido seu, para enviar uma mensagem como se fosse ele. Esperar que um usuário não técnico mantenha seus softwares atualizados também é devanêio. Se com as atualizações automáticas feitas pelo Windows já é difícil, imagine como a miríade de softwares aplicativos instalados na máquina do usuário, como programas de mensagens instântaneas, compartilhamento de arquivos, reprodutores de MP3, codecs de vídeo, etc. Arquivos executáveis então, é outro caso que o usuário pode ser facilmente ludibriado, basta enviar um arquivo cuja extenção não seja EXE. Mais difícil? Talvez não, existem arquivos MSI, CAB, JAR, etc. E, é claro, que o usuário não vai decorar a infinidade de extensões possíveis, antes de abrir as últimas fotos da revista masculina, que ele recebeu por e-mail.

Se tudo isso já era ruim, estes dados sobre a aprendizagem das pessoas mostra mais um obstáculo a ser superado. Claro que o fato do usuário não gravar direito as dicas de segurança não é novidade, mas o mais preocupante é que, segundo estes dados, ele não guarda informações que lhe foram apenas ditas, o que se dirá de informações “especializadas” sobre um assunto que ele não domina?

Aquele texto que ele foi obrigado a ler (se leu) no processo de integração na empresa, ele já esqueceu. A campanha publicitária na TV? Sobre o que era mesmo? Falava para não por a chave embaixo do tapete, mas o que deve ser feito na Internet?

Pode parecer que eu estou achando que todos os usuários são burros ou ignorantes, mas acho que é justamente o contrário. Creio que todo ser humano é capaz de apreender muitas coisas, porém parte deste processo depende de afinidade e hábito. Para minha prima farmacêutica, muitas coisas de quimica que para mim são exotéricas, para ela são elementares. Da mesma forma, muitas coisas que para nós profissionais de SI (ou mesmo de TI) são simples, para muitos podem parecer complexas ou até mesmo irracionais.

Dada esta crença, creio que o caminho para que os programas de conscientização se tornem verdadeiramente relevantes, seja se apoiar na capacidade humana de raciocinar. Não vamos dar “dicas” como se dissessemos para crianças façam isso, ou não façam aquilo, pois mesmo para elas parece que não funciona. Vamos buscar formas de apresentar os conceitos de segurança de uma forma que leve a formação da idéia pelo próprio usuário, vamos buscar formas de educar, não adestrar, vamos buscar desenvolver o senso crítico, de forma a possibilitar que o usuário seja capaz de se auto-defender.

Estou lendo “Coaching para Performance” (John Whitmore – ISBN 85-7303-617-6), e o autor apresentou os resultados de um estudo feito pela IBM e posteriormente pelos Correios do Reino Unido, que chegou aos seguintes resultados sobre a relação entre forma de apresentação de novos conceitos/informações e o tempo que as pessoas se recordam do que aprenderam:

Recordavam o conceito/informação depois de: Forma de apresentação:
Dito Dito e mostrado Dito, mostrado e vivenciado
3 semanas 70% 72% 85%
3 meses 10% 32% 65%

Estes dados demonstram dois pontos fundamentais, que devem ser considerados nos planos de conscientização:

  • Apenas informar o usuário sobre os cuidados que ele deve ter não é o suficiente, o processo de aprendizagem deve ser interativo, buscando levá-lo a vivênciar os riscos;
  • O processo deve incluir formas de reavivar os conceitos periodicamente, pois até os conceitos aprendidos pelos métodos com maiores tempos de retenção acabam sendo esquecidos por uma parcela das pessoas.